Por O Popular, 22/08/2026.
Hoje, 22 de agosto de 2026, faz 50 anos que Juscelino Kubitschek morreu. Meio século depois, o debate sobre sua trajetória permanece atual, não apenas pela saudade de um líder político extraordinário, mas pela falta que faz ao Brasil um governante capaz de oferecer um grande propósito nacional.
Poucos presidentes conseguiram mobilizar o imaginário dos brasileiros como JK. Seu governo foi marcado pelo otimismo, pela confiança no futuro e pela convicção de que o Estado poderia liderar uma profunda transformação econômica e social. O lema “Cinquenta anos em cinco” simbolizou um tempo em que o país acreditava que era possível crescer, inovar e sonhar grande.
Ao levar a sede do governo para o interior, Juscelino mudou o eixo do desenvolvimento brasileiro, mas Brasília foi, sobretudo, uma declaração de confiança no Brasil. E foi em Goiás que essa história começou. Em 4 de abril de 1955, em um comício em Jataí, JK foi questionado se cumpriria a Constituição e transferiria a capital para o interior do país. E ali, ele colocou a construção da nova capital como meta-síntese de seu programa de governo, o que mudaria a geografia política do Brasil.
A ligação de JK com Goiás não terminou com a inauguração de Brasília. Quando deixou a Presidência da República, extremamente combatido pelo presidente Jânio Quadros, JK precisava de um mandato. As forças políticas de Goiás, do governo e da oposição – unidas – construíram uma engenharia para elegê-lo, e seis meses após concluir o mandato de presidente, em 4 de julho de 1961, ele se tornou senador goiano, com o slogan: Goiás bom pagador, JK para senador, que expressava a gratidão dos goianos pela construção de Brasília em território goiano.
Goiás não apenas recebeu Brasília. Também acolheu JK como um de seus representantes políticos. Essa relação explica por que os goianos podem reivindicar uma parte importante da memória de Juscelino Kubitschek. Mineiro de nascimento, ele tornou-se, por escolha política e afinidade histórica, um goiano.
O estado participou dos dois momentos decisivos de sua vida pública: o compromisso com Brasília e sua eleição para o Senado.
Mas talvez a maior lição deixada por JK não seja uma obra específica. Seu verdadeiro legado foi demonstrar que um país precisa de um horizonte compartilhado. Grandes nações são construídas quando conseguem organizar suas energias em torno de objetivos claros e permanentes.
O Brasil contemporâneo parece ter perdido essa capacidade. Governos sucedem governos, alternam prioridades, respondem às urgências do presente, mas raramente apresentam projetos capazes de mobilizar a sociedade por décadas. Não precisamos construir outra capital. O desafio do século XXI é outro.
Se Juscelino escolheu Brasília como a meta-síntese de seu governo, o próximo presidente brasileiro deveria escolher a educação como a de uma geração, que torne a educação o principal instrumento de redução das desigualdades e da violência. Brasília mudou o mapa do Brasil. A educação pode mudar o destino dos brasileiros.
É esse tipo de propósito que distingue administradores de estadistas. E é por isso que Juscelino Kubitschek continua vivo na memória nacional: não pelo que realizou, mas porque ensinou que nenhum país se torna grande sem ousar sonhar grande.
Vilmar Rocha
Advogado, professor de Direito da UFG e presidente do Instituto Vilmar Rocha de Estudos Políticos.